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SUBTROPICAL
Publicação criada durante residência na Casa Tomada - São Paulo
“le pusieron enfrente un espejo,
y que aquel gigante enardecido
perdió el uso de la razón por
el pavor de su propria imagen.”


O Atlântico é um continente comum e submerso, charco semi-infinito para todos os lados e espinhado pela dorsal meso-atlântica, a qual só foi possível atravessar ao flutuar por este alagado vastíssimo, fato agradecido pelas naus e pelos piratas que um dia o conseguiram cruzar, e pelos do outro lado, (o de cá) que puderam gozar por um bom tempo um meretrício alegre no que diz respeito ao amor, à guerra, à roupa, ao tempo, ao divino, ao dinheiro, à propriedade e à ausência abençoada de muitas palavras, como por exemplo, a arte.

Suas correntes desviaram muitas expedições e transformaram as linhas dos tratados e das cartas náuticas num emaranhado que ofendeu a existência de sextantes, bússolas, estrelas e mapas inconclusos – ofensa que só pode ser superada pelo nascimento do satélite e que em breve será vingada pela reversão magnética dos pólos – culminando no desembarque do equívoco sobre a fantasia do novo mundo e na colonização do delírio, que por sua vez viria a produzir as cinco guerras, os dezessete golpes, a escravidão, o etnocídio, os desaparecidos e a tentativa de comprimir os séculos para chumbar aqui uma réplica temática à força; a exuberância da vida em paralelo com a da violência. Este oceano misturou as gentes e as consequências estão num subproduto de povos semi-asiáticos que vieram a pé de muito antes para depois serem chamados de índios, que copularam com africanos e europeus, cujas crias vieram a se misturar em gozo e lama no delírio da prática colonial que dura até os dias de hoje e nos faz perguntar porque é que nós, quando fazemos arte, temos que ao mesmo tempo sublimar toda esta balbúrdia para nos afirmarmos como parte mais nova do mundo. Se as imagens que vieram se tornaram outra coisa qualquer no trânsito e no curso dos anos, o mesmo pode acontecer no contrafluxo.

Ficamos entre a adoção folclórica da solidão ancestral como resposta ou com o fetiche da eterna distância de séculos como um farol do outro lado da margem. Ou estamos já no vórtice salgado de oitenta milhões de quilômetros quadrados, permanentemente divididos entre o não ser e o ser outro e correndo o risco da metamorfose involuntária do meio do caminho, por onde passa a corrente que traz os protótipos da beleza e cobra o minério terrível para apresentar lá uma realidade fantástica de um mundo que já foi soterrado.
Carta de ventos e correntes do Atlântico
Cruzador Gral. Belgrano afundando durante batalha na Guerra das Malvinas