O SOL, O JACARÉ ALBINO E OUTRAS MUTAÇÕES
Athena Contemporânea, 2016
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Vista da exposição - O sol, o jacaré albino e outras mutações
O sol - Esmalte, óleo e acrílica sobre tela - 130 x 130 cm
Planetinha
Esmalte, óleo e acrílica sobre tela
30 x 30 cm
O jacaré albino - Óleo sobre tela - 50 x 60 cm
Metro - Esmalte sobre galho - 125 x aprox. 2 cm de diâmetro
Dente por dente - Cartões de acesso de catraca eletrônica sobre madeira - 48,5 x 81 cm
Mercúrio - Spray e tinta acrílica sobre aço galvanizado - 150 x 120 cm
Facão - Colagem de mapas amazônicos sobre facões - 15,5 x 69 cm, 5 x 55 cm, 5 x 48 cm
Composição minimalista selvagem - aço galvanizado, dente e esmalte
60 x 50 cm
Armadilha de caça - aço e esmalte - ø40 x 25 cm
Arquivo - óleo e esmalte sobre papel - 48 x 35 cm
Estilhaço nuvem - esmalte sobre papel - 47 x 34 cm
Para nos aproximarmos do invisível sem desejar vê-lo

*

Entendemos como invisível a percepção de algo que existe pois o denominamos,
mas que por motivos físicos ou culturais, conceituais, políticos, dentre outros, não se
desvela no campo da matéria . Queremos reunir o que passa desapercebido; o que se
manifesta apenas na esfera das sensações sem receber nomes; o que é nítido para uns
ao mesmo tempo em que é obscuro para outros . O invisível, como proposta, é um
ponto de partida para refletirmos sobre o que é real para nós, mesmo que não se
mostre aos sentidos. Como seria, no campo da arte, o desafio de fazer ver?
(dizem que existem muitas coisas invisíveis)
(todas as experiências particulares dizem ser invisíveis)
(mas me pergunto sempre o que posso diante da invisibilidade das coisas que consigo
denominar)
(coisas e experiências)
(as duas coisas que são coisas distintas podem ser ou não existentes)
(disse-me sempre que a arte torna visível o invisível)
(mas paul klee já faleceu em fôlego atrasado)
(pois se a arte tem fôlego existe no momento de sua realização)
(pelo menos depois que passa ela se torna sempre visível)
(porque a experiência da arte é individual)
(um levisivni)
(para pensar o invisível agora eu tenho que pensar antes dele)
(podemos pensar que a descrição de uma experiência é sempre uma criação já que a
experiência nunca será universal)
(podemos dizer que chegamos no lugar da ficção)
(mas mesmo assim a descrição de uma experiência tende tornar o particular em algo
universal)
(e todas as imagens que a descrição da experiência invisível pode trazer serão de
alguma maneira visíveis)
(pelo menos individualmente mesmo sendo a descrição uma proposição universal)

*

Como saber quando um detalhe parece realmente verdadeiro? O que nos guia? O
teólogo medieval Duns Scotts deu nome de “estidade” ao processo de individuação ...
A estidade é um bom começo. Por estidade entendo qualquer detalhe que atrai para si
a abstração e parece matá-la com um sopro de tangibilidade; qualquer que concentra
Nossa detalhe atenção por sua concretude.
(este parêntesis inicia um pequeno texto que fica entre as duas palavras que ele se
encontra)
(este texto que esta em todos os parênteses faz referência ao texto de fora deles)
(o texto de fora é parte do verbete de número quarenta e sete do capítulo Detalhe do
livro “Como Funciona a Ficção” do crítico literário James Wood)
(James Wood neste livro tenta presunçosamente “ensinar” o leitor a entender como ler
a ficção literária para possivelmente depois escreve-la)
(mas pensemos que antes de escrever a ficção o indivíduo deve estar devidamente

evoluído)
(e sua evolução depende do movimento exercido até sua maturidade)
(que é determinada pelo processo de desvencilhamento da identificação que teve com
as coisas do passado para o acolhimento da diferença que deve ter das coisas no e do
futuro)
(neste processo encontramos o constante presente)
(que se justifica a partir da conscientização do indivíduo para com seu poder de
criação)
(o que transforma particularmente o indivíduo)
(assim o indivíduo inicia-se em sua própria transgressão)
(no momento do presente em que percebe que criaram sua história na história
das coisas)
(e que todas as coisas não são mais do que o detalhe do presente que se torna
representação no futuro)
(uma mimese da ficção inicia-se invisivelmente em sua mente)
(ele está criando a si mesmo na criação do mundo)
*

A história, como lugar de criação ou relato do passado, nosso tema de aprendizado,
apenas nos é passível de imersão através da linguagem. Toda nossa experiência
estética e racional do passado, ou da história, é completamente inseparável do
discurso criado sobre nós mesmos. O discurso da história teve de ser escrito antes de
se tornar a história que conhecemos, ela teve de ser mediada pela escrita de seu
próprio discurso, para que assim conseguisse se indissociar da maneira em que nos
convence de ser nossa história. A relação obrigatória da história com o passado faz-
nos compreender, antes de tudo, sua necessidade social de ser escrita. Sendo que o
caráter histórico da própria historia que contamos para nós mesmos é a comunicação
dos acontecimentos do passado de nossa história. Porém, é com os olhos voltados a
crítica - sabendo-nos ser seres que divagam e refletem sobre si mesmos – que
deveríamos almejar a escrita à história e a história à crítica. Ao percebermos a
história sendo contada de modo que tivesse causado uma evolução significativa nos
modos de literatura que constituímos hoje, evolucionando e revolucionando a
linguagem , podemos compreender no mínimo que o problema ou solução dos
escritores da história - os historiadores -, é a interpretação. Ou melhor dizendo , é a
crítica dos contextos dos acontecimentos reais no momento em que se escreve sobre
o passado. O presente se justapõe ao passado no momento em que se escreve, já que
ele influencia a escolha dos fatos do passado a favor de seu próprio contexto presente.
Então poderíamos dizer que a história se vale da narrativa para discernir os possíveis
fatos reais do passado, para assim tornar-nos passíveis de entender as decorrências da
história. Assim, a partir da escolha e do interesse dado pelo entendimento do passado
e pelo vislumbre dado pelo presente no futuro, toda escrita narrativa histórica não
seria senão uma crítica de nossa própria escrita da nossa própria história.
(quando algo é colocado no mundo)
(de forma fictícia ou não)
(existe de alguma forma)
(tanto em discurso como em objeto de)
(não importa a sua forma de existência)
(interessa sim apenas sua existência)

(criar algo e coloca-lo no mundo material/verbal/virtual)
(seja o que for)
(faz parte do que acreditamos por realidade)
(ou que faz parte de uma denominação)
(real)
(que criamos para nos assegurar em nossa existência)
(o homem só conhece o que ele mesmo coloca no mundo)
(de forma que)
(se um homem coloca algo no mundo sem precedente contextual ou mesmo com
pretensão fictícia)
(esse objeto físico ou verbal tem um caráter essencial de existência)
(pois sua natureza é criadora)
(se tudo o que é criado e por conseguinte posto no mundo)
(adverso de seu caráter de veracidade)
(existe enquanto realidade pois podemos dizer que a própria denominação do real é
uma de nossas melhores criações)
(a realidade nesse caso em nada se confronta com a noção de falsidade e/ou ficção
e/ou verdade)
(se existe é realidade)
(assim a existência de algo criado pelo homem demanda seu caráter de realidade)
(que ao mesmo tempo não se predispõe com o seu caráter de veracidade)
(mas se é possível pensar que a realidade de algo é passível a partir de sua existência)
(então a veracidade da existência de uma ficção se dá por falsa)
(apenas por que ela esta posta e por ter sido anteriormente criada)
(o objeto posto enquanto objeto criado existe)
(é real)
(e só por consequência tem vontade verdadeira)
(mas seu conteúdo fictício ou não pode apresentar caráter diverso da verdade)
(nesse sentido)
(a única verdade que sabemos desse suposto objeto criado é que ele existe)
(e se existe é real)
(tanto ele)
(este objeto posto)
(como o que consideramos real)
(são confrontados pela criação deles mesmos)
*

São duas histórias que escutaram. Para nós são uma só agora. A primeira era sobre um
fotografo. A segunda sobre o calor que as partículas dos átomos geram. A nossa, é
sobre a magia. Talvez seja conhecido de muitos a história dos terreiros de candomblé
de Salvador-BA), que foram caçados, destituídos, destruídos, quebrados e
desapropriados arduamente durante a ditadura militar - e são até hoje - e que, na
mesma medida e proporção foram construídos, legitimados, reconstruídos,
remendados, reapropriados e restituídos fortemente pelos pais e mães de santo e seus
trabalhadores. Para gerar um terreiro necessitasse de muito trabalho. Para dotar um
objeto, santo ou o que for de poder, é necessário trabalhar muito. É necessário gerar
calor. É necessário que o movimento provindo do trabalho gere tanto calor que o
objeto se dote, naturalmente com o tempo do trabalho, de uma enorme energia. O
outro que mantém relação de trabalho com este objeto não obrigatoriamente o

domina, mas o transforma ao mesmo tempo que se transforma, pois toda geração de
calor deseja de ambas as partes que elas trabalhem. Se um objeto pode trabalhar
sozinho nós não sabemos, mas que ele trabalha em relação ao todo que o cerca é uma
certeza sem tamanho. O que acontece é que o fotografo trabalhou para dar energia ao
trabalho em dar energia aos objetos realizados aos que trabalhavam para isso. O que
acontece é que o calor existente na realização de toda essa atenção ao trabalho se
tornou tão enorme que não pode existir, pois o calor nos aproxima do medo de
queimar, do medo de sermos poderosos. No momento em que um terreiro é destruído,
que seus objetos de poder são destruídos ou levados, o terreiro perde os pontos de
trabalho. Perde com isso toda a energia que nele continha, que nele se fazia presente
através de um trabalho constante, de um movimento constante. Ao perder, o terreiro
deve recomeçar, e retomar o movimento é ainda mais trabalhoso, pois o que se
premedita é voltar rapidamente aos trabalhos que ali estavam acontecendo. Uma certa
urgência se faz presente. Neste exato momento de retomada, o terreiro se torna ainda
mais energizado, produzindo movimentos mais rápidos, mais numerosos e mais
atenciosos, a geração de calor é maior, a detenção de energia é mais densa e assim
obtêm-se, mesmo sem desejar, mais poder. O fotografo trabalha junto. A partir de
todo esse calor, gerado pelo movimento de trabalhos de vários, que dota o lugar e seus
objetos de energia é que podemos dizer que existe magia, sem itálico ou aspas para
acontecer neste texto, neste trabalho que é nosso. No momento em que se reconhece
ao objeto seu poder acontece magia.
(esse é um movimento continuo e recorrente da História)
(mas a história não conta o que não se conta)
(e nossa história não deveria vir com “h”)
(muito menos em maiúsculo)
(já que não reconhecemos nossa história na História)
(poderíamos facilmente deixar de escrever história e nos deixarmos a limpa
visualidade da istória)
(a fonética não muda)
(mas a língua assume o exercício ligeiro de nossa experimentação)
(do nosso desejo de desejar a linguagem)
(do desejo de desejar fazer parte da história a nossa istória)

*

O presente, a experiência e a criação são as únicas coisas infinitas. Na concepção
ocidental sobre conhecimento, podemos distinguir dois procedimentos que poderiam
alcançar o entendimento que se dá entre um objeto e um sujeito. Cientificamente, o
caminho percorrido é o de desmembramento e estudo das partes do objeto em que se
debruça o estudo. Filosoficamente, a estrada percorre as significações e as camadas de
possíveis entendimento da experiência com o objeto, levando assim um estudo
imbricado na reflexão da causa e consequência dele. Porém, no estado de criação, um
objeto pode ser conhecido a partir da experimentação do sujeito em relação a ele, do
embate do corpo e mente com a materialidade e significado do objeto, do contexto
dele com o indivíduo que o mantém em estado de investigação no meio. O
conhecimento neste caso é uma constante, não é um fim, nem uma causa, é um
projeto infinito de debruçamento que percebe o objeto em rede, na compartibilidade
de suas partes com o contexto. Assim é a linguagem, um campo desértico, escuro e
desconhecido de criação, experimentá-la é experienciá-la.

(a busca pela realidade ou pela verdade no âmbito da cultura contemporânea é algo
ilusório)
(o que existe muitas vezes é a representação)
(que almeja ser)
(na proximidade ao real ou na construção fictícia dele)
(arte)
(com relação ao filósofo que abrange um movimento quase por completo pendular na
vida)
(como a busca grega pela verdade)
(é em si uma coisa conhecida inacessível)
(já que o ato de filosofar nesse sentido é justamente a busca da verdade em que
reconhecemos a inexistência de uma única verdade que justifique as coisas)
(criação > existência > realidade > verdade - porque está posto)

*

Meu Computador, Facebook, Feed de Notícias, Postagem do Pascoal, Vídeo de
Celular, 26 de abril de 2015, IMAGEM DOCUMENTAL EXPERIENCIADA. Lá
estava eu, mais um dia perdendo muito tempo da vida passando os dois dedos no
mouse, baixando o feed de notícias do facebook para ver se encontrava algo que me
prendesse a atenção por qualquer instante de tempo. Para retirar de mim a angustia
nervosa em passar mais um domingo. Descia o feed, descia as notícias subjetivas da
vida dos outros, descia a vontade de não ter vontade nenhuma de fazer aquilo, mas
que continuava fazendo. Manter-me fazendo aquilo era o mesmo que manter-me a
procura de mim mesmo. Me deparo com uma postagem de um grande amigo que tive
no período que constituía meu caráter. Ali parecia que me encontraria. Encontrei o
outro em mim. Era um vídeo. Tinha cerca de um minuto. Começava com uma mulher
equilibrada de pé no parapeito do Viaduto do Chá, perto do Teatro Municipal, quase
pulando para baixo, pro chão extenso de pedras baianas do Vale do Anhangabaú. A
pessoa que filmava estava na parte do chão do Vale. O angulo era aberto e dava uma
imagem poderosa àquela mulher. De baixo para cima. Parecia que ela detinha o
comando de tudo que havia de acontecer. Não demorou muito e ela tentou pular.
Quatro homens que estavam próximo dela, na parte de cima, ante o parapeito, que
tentavam argumentar para que ela não pulasse, conseguiram a segurar pelo braço
direito, antes que ela flanasse por mais de quinze metros de pé direito. Os gritos eram
audíveis a todos. Os homens não falavam quase nada, apenas gemiam a força que
faziam para aguentar o peso da mulher. E a mulher, a mulher gritava, ela desejava
voltar ao seu lugar de poder, ao desejo da vontade de se surpreender consigo mesma.
Não demorou muito e ela escorregou, caiu mesmo. Os gritos dela fizeram o seu corpo
gerar calor suficiente para não parar de mover as pernas em nenhum instante. E os
homens não puderam manter a concentração. Não puderam aguentar o silencio que se
fazia dentro deles. Não puderam desejar a morte deles mesmos mais que a dela. Não
aguentaram a gravidade, a maturidade de envelhecer. Ela chegou reta no chão, deitou
horizontalmente e fez o único barulho, som, compreensível naquele momento. O som
da morte. O som que é estranho aos vivos. O som que não parece nunca vir de quem
ou o que o produz. Mas o filme continuou e só terminou quando qualquer som não
pudesse ser ouvido por nenhum espectador, eu.

(é importante dizer antes de tudo que nenhum texto pode substituir a experiência da
imagem, porém a experiência do texto como uma imagem que referência a si mesmo)
(sem ilustrar outra imagem externa a ele)
(é a meu ver a maneira mais próxima que podemos chegar da constituição)
(se possível for)
(de algum conhecimento de algo que tangencia uma experiência)
(o que quero dizer é que se conseguirmos nos distanciar da descrição de uma imagem)
(como uma imagem de referencia a ela concedida)
(poderemos no mínimo deixar que a experiência da imagem possa causar uma
reflexão mais aprofundada da experiência que podemos ter com ela)
(mas isso só é possível se pudermos unir estas duas mesmas experiências em um
mesmo patamar de entendimento da imagem)
(ou da tentativa de entende-la)
(seria de difícil acordo hoje discutirmos as diferenças da experiência dos fenômenos
da vida e das imagens que obtemos destes fenômenos)
(a interface virtual constituída pela internet vem dissolvendo cada vez mais a
dissonância destes parâmetros)
(se a alguns anos falávamos um para o outro, nos encontros possíveis dos corpos dos
indivíduos que nos constituem)
(que existia uma grande diferença entre presenciar uma imagem ao vivo e ver a
imagem documental dela)
(hoje podemos dizer que a experiência da realidade da imagem tem se aproximado
cada vez mais do que sabemos sobre ela)
(sua descrição)
(é dentro desse sentido ambíguo que viemos construindo, sobre o significado
verdadeiro ou falso da experiência)
(que se encontra a maneira a qual soubemos entender a dissolução do sentido deste
termo)
(representação)

*

Uma vez, uma pessoa que leu um livro, nos contou-nos que existia uma sociedade
“indígena”, vivendo em algum lugar, há algum tempo, e que essa não conhecia outra
sociedade que não fosse a que essa mesma sociedade conhecia, ou seja, a própria
sociedade que eram. Como não nos recordamos dos substantivos que os nomeiam,
nos permitimos aqui inventar, para apenas apresentar o que são os fatos empíricos das
coisas. Como também não lembramos bem dos adjetivos que os caracterizavam e que
são suas qualidades, vamos contar apenas as relações que essa sociedade matem com
esses adjetivos. Assim como também não recordamos a quantidade deles, os numerais
inventados por essa sociedade e muito menos o numeral que os limitam, nos
propomos a apenas compara-los com as nossas experiências. Pronto. A sociedade se
chamava Xinaubô, os Xinaubô. Mas seu nome não foi dado pelos próprios, só
conheceram o seu primeiro substantivo, nome próprio, após terem o primeiro contato
com os Xinaubaté, denominado também pelos próprios Xinaubô. Os Xinaubaté
também, antes de encontrarem os Xinaubô, não tinham nome e também não haviam
se auto denominado, pois não conheciam outra sociedade que não fossem os
Xinaubaté. O estranho é que, tanto os Xinaubô quanto os Xinaubaté se comunicavam
através de uma mesma linhagem linguística, que foi denominada pelo órgão nacional

de proteção às sociedades indígenas de onde se encontravam como a língua - de dois
distintos mas próximos dialetos - Xinaú. Mas o porque dessas sociedades terem a
mesma língua nós não nos sabemos explicar. Os Xinaubô ao encontrarem os
Xinaubaté, e vice e versa, disseram uns aos outros: “Nós somos verdadeiros, temos
costumes verdadeiros”. E disso surgiu um conflito, existiam dois verdadeiros e um
não poderia ser mais verdadeiro que o outro, pois agora cada um conhecia outro tipo
de verdadeiro que não era o seu. Então, para não perdurarem no conflito, cada
sociedade significou a outra sociedade a partir de seus costumes. Os Xinaubô foram
denominados pelos Xinaubaté com a conjunção Bô, porque Bô significa “onça da
noite”, por terem o costume de andarem durante a noite pela mata. Os Xinaubaté
foram denominados pelos Xinaubô com a conjunção Baté, porque Baté significa
“pássaro do dia”, por terem o costume de acordarem antes de amanhecer para caçar e
plantar. Mas, nenhuma das sociedades gostou da denominação que foi dada, pois cada
uma a sua maneira percebiam os nomes dados como ofensas. Para os Xinaubô as
onças eram justamente os animais que roubavam suas crianças durante as noites, e
isso explica o costume deles de estarem em vigília noturna ao redor da habitação da
própria habitação. E para os Xinaubaté os pássaros do dia eram os que roubavam
todos os frutos e sementes ao amanhecer, por isso acordavam muito cedo, para
manterem vigília e salvaguardarem seu roçado. Mesmo assim, as duas sociedades,
sabendo agora onde cada uma estava e o que podiam compartilhar, mantiveram
contato, escambo e até uniões afetivas. Passou-se muito tempo e os grupos ainda se
referiam uma a outra do mesmo modo. Até que pela primeira vez apareceu um Putorí,
um “não-nós”, o que na significação sintática das duas sociedades era quase um não-
verdadeiro, pois não mantinham costumes verdadeiros. Um Putorí, para nós aqui,
seria um homem branco. O Putorí, rapidamente trouxe outros Putorí. Os Putorí eram
do órgão nacional de preservação às sociedades indígenas. Ao apreenderem
lentamente a língua Xinaú, denomina com esse nome pelos próprios Putorí,
começaram a entender o que a palavra Xinaú significava. Xinaú significa “homens
verdadeiros”. Então, denominaram a língua das duas sociedades como Xinaú, mas
mantiveram chamando os Xinaubaté e os Xinaubô de como os próprio de
denominavam, porém, com uma mudança, retiraram o Xin, que significa verdadeiro
em Xinaú, ficando assim as denominações Aubaté e Aubô, mantem apenas as
significações ofensivas que as próprias sociedades não gostavam. Au significa, para
as duas sociedades, homem, enquanto que para os Putorí, índio. Desse modo, para os
Putorí, Xinaú significa “índio verdadeiro”, enquanto que para as sociedades “homem
verdadeiro”. Assim, a partir de diversos relatórios escritos pelos Putorí e com a visita
cada vez maior de antropólogos, também Putorí, trazidos pelos Putorí já conhecidos, o
mundo inteiro conhece as duas sociedades hoje como sociedades irmãs chamadas
Aubaté e Aubô. Ao perceberem que os Putorí chamavam os Xinaubaté e os Xinaubô
unicamente do que os ofendiam, retirando a conjunção Xin (verdadeiro), e
entendendo que Au para os Putorí era outra coisa que não homem, tanto os Xinaubô
quanto os Xinaubaté começaram a se chamar apenas de Xinaú, que significa “homem
verdadeiro”. E até hoje, os Xinaú continuam a chamar os Putorí de Putorí e não
conversam com os Putorí se os chamarem de Xinaubô ou Xinaubaté.
(os limites da linguagem são os limites do meu mundo)

*

No budismo há muita coisa que não sabemos. Há também as coisas que sabemos e
que não se explicam. Há as coisas que se explicam muito, mas que não conseguimos
saber. O silêncio e o universo são justificados através de narrativas metafóricas que
contam ensinamento. Ensinamentos não são necessariamente uma pedagogia
falaciosa, mas um reclame que o universo faz à interpretação que fazemos da
realidade, das experiências vividas. Quando
Texto - Leonardo Araújo